49,2% das denúncias nas empresas são "relacionamento interpessoal"

O canal de denúncias mede o sintoma, não a causa. Ele registra quando o padrão já virou fato.

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Simone Feuser

9/4/20263 min read

The word compliance spelled out with wooden letter tiles on a rustic table
The word compliance spelled out with wooden letter tiles on a rustic table

Toda vez que uma empresa me chama depois de uma denúncia formal, sempre busco compreender, para além dos fatos, o que aconteceu antes deles.

É muito raro a denúncia ser apenas o início de uma história. Geralmente é o capítulo em que alguém decidiu formalizar algo que já estava rodando fazia tempo. E o que vem antes nem sempre é a empresa fechando os olhos pra alguma coisa. Muitas vezes é bem mais simples e bem mais humano do que isso: um desentendimento antigo entre duas pessoas que nunca foi conversado direito. Um ciúme profissional que virou implicância. Uma forma ríspida de gerir pessoas. Uma rivalidade que começou pequena e foi crescendo silenciosamente até virar munição. Às vezes é vingança mesmo, pura e simples, de alguém que guardou mágoa e viu no canal uma forma de acertar as contas.

A Pesquisa Nacional de Canais de Denúncias 2026 trouxe um número que confirma algo que vejo há anos na prática: quase metade dos relatos registrados nas empresas brasileiras, 49,2%, é relacionamento interpessoal. Assédio, fofoca, atrito entre colegas, entre líder e liderado. É gente convivendo com gente, oito horas por dia, cinco dias por semana, com tudo que uma convivência assim carrega, inclusive as partes que não têm nada a ver com hierarquia ou cultura organizacional.

E o tempo médio pra apurar hoje é de 42 dias. Menor que em 2024, o que já é um ganho real de eficiência. Só que repare no que esse número mede: a distância entre a denúncia e a resposta. Fica de fora o que mais me interessa, que é o tempo entre o padrão relacional começar a se formar entre duas ou mais pessoas e alguém decidir, finalmente, levar aquilo a um canal formal.

Esse é o ponto que eu queria que você segurasse até o fim do texto: o canal de denúncias mede o sintoma. A dinâmica que produziu aquele sintoma, ele não tem como alcançar. Não é falha do canal, é escopo. Ele foi desenhado pra apurar um fato, não pra entender a relação que o gerou.

Quando alguém denuncia assédio moral, o comitê vai investigar o fato relatado. Vai ouvir testemunha, cruzar data, ver se teve reincidência, decidir se cabe alguma medida. Tudo isso é necessário e correto. Mas a pergunta que mais me interessa, pensando em reduzir a recorrência desse tipo de relato, é a seguinte: o que estava acontecendo entre essas pessoas, ou nesse time, muito antes de virar uma denúncia?

Olhando de perto, o dia a dia, encontro cenas bem variadas. Às vezes é claramente um padrão que a liderança deixou passar. Às vezes é uma disputa antiga entre pares que ninguém de fora enxergou, porque só existia entre os dois. Às vezes é alguém repetindo, sem perceber, uma forma de se relacionar que aprendeu em outro lugar, muito antes daquele emprego. Colocar tudo isso na conta da empresa seria simplificar demais uma coisa que é, na maior parte das vezes, sobre pessoas e história entre pessoas.

O que eu proponho aqui é reconhecer que, entre o fato relatado e a causa real, sempre existe uma camada de relação que o canal não enxerga e não tem como enxergar. Duas pessoas com um histórico. Um time com uma dinâmica própria. Uma liderança que talvez tenha contribuído, ou talvez só estivesse no lugar errado quando o conflito de outra origem explodiu.

Por isso, quando um cliente me pergunta o que fazer pra reduzir denúncia de relacionamento interpessoal, minha resposta não começa pelo canal. O canal é a porta de saída de algo que vinha de outro lugar. Deixar ele mais acessível, mais rápido, mais confiável, tudo isso importa, não estou dizendo o contrário. Só que isso melhora a apuração de um fato. Não necessariamente explica a relação que produziu aquele fato, e sem entender a relação, o mesmo tipo de situação tende a se repetir, só que com outros nomes.

Os dados também sugerem esse acúmulo. O volume de denúncia no Brasil subiu 4,17% em um ano. E dentro desse volume, o percentual classificado como impacto alto ou crítico também subiu, de 9,7% pra 11,9%. Uma leitura possível é que mais gente está confiando no canal. Outra leitura, que não anula a primeira, é que o que chega até ele está mais grave.

Se você lidera uma empresa e esse número de relacionamento interpessoal te chama atenção, fica com essa pergunta: quantas dessas situações, se olhadas de perto, são sobre a organização, e quantas são sobre relações entre pessoas que a organização simplesmente não tinha como ver antes de virar denúncia?

Simone Feuser

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