Algumas pessoas ficam com medo quando eu explico meu trabalho

Muitas empresas tentam resolver turnover, conflitos e desgaste interno podando os “galhos” do problema, sem perceber que a raiz costuma estar nos padrões invisíveis que a cultura aprendeu a repetir. Compreender essas dinâmicas serve para evitar que os mesmos problemas continuem crescendo com nomes diferentes.

CULTURAENGAJAMENTO

Simone Feuser

5/29/20263 min read

oval brown wooden conference table and chairs inside conference room
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Quando eu explico que minha consultoria busca compreender os problemas para conseguirmos resolvê-los de forma mais efetiva, algumas pessoas ficam com receio. E isso explica o quanto elas estão realmente dispostas a ver, entender e enfrentar a realidade.

Às vezes essa reação me causa um certo desânimo por uns minutos, porque eu vejo todos os dias os resultados excelentes nas empresas que presto serviço. Mas o desânimo logo dá lugar à empatia. Afinal, eu também sinto isso às vezes e sei o que está por baixo desse comportamento.

Pessoas que operam a partir de comportamentos repetidos e destrutivos, criam equipes que também operam a partir desses mesmos mecanismos. É evidente que isso não acontece de propósito, mas por repetição e integração do comportamento na cultura.

Uma liderança que aprendeu que mostrar vulnerabilidade é perigoso vai criar uma cultura onde ninguém admite que está com problema, e isso pode transformar pequenos ruídos em grandes entraves. Uma liderança que sobreviveu evitando conflito vai criar um ambiente onde os conflitos existem, mas ninguém nomeia. E uma empresa onde ninguém nomeia os problemas... os problemas não somem. Eles criam raiz.

É essa a imagem que fica comigo quando penso em empresas que resistem a olhar para dentro: uma árvore. O que aparece — o turnover, os conflitos entre líderes, o clima que deteriora, os processos trabalhistas — são galhos. Você pode podar galho por galho, contratar consultor por consultor, fazer treinamento por treinamento. A árvore continua crescendo, porque ninguém foi até a raiz.

A raiz não é o funcionário que pediu demissão, nem o gestor que não sabe dar feedback. Também não é a política de benefícios desatualizada: a raiz é o padrão que a organização aprendeu, sem perceber, sobre como se relacionar com o que é difícil. E padrões aprendidos nem sempre mudam efetivamente com alguns treinamentos. Mudam com leitura, nomeação, compreensão e quando as pessoas estão dispostas a descer até onde as causas começam.

O problema é que compreender verdadeiramente todos os contornos dos problemas assusta. E o medo de ver é completamente humano — não é fraqueza, não é má-fé, mas proteção. O sistema nervoso de uma organização, assim como o de uma pessoa, aprende a desviar do que dói. E quanto mais tempo desvia, mais o desvio parece normal, a ponto de as empresas decidirem não enfrentar esses desgastes e isso ser compreendido como uma decisão razoável de gestão.

O que eu quero dizer pra você que sabe que a sua empresa tem potencial para mudar e evoluir não é que você precisa de coragem, mas que o custo de não olhar para o que engessa não some; ele se acumula. Cada galho que cresce faz sombra em outro lugar. E em algum momento a árvore fica grande demais para ignorar, e aí o trabalho é muito maior do que teria sido se alguém tivesse ido até a raiz quando ainda era possível chegar lá mais rápido.

Olhar para os problemas de verdade não precisa ser algo dramático, nem apressado. Tudo pode ser trabalhado de forma mais lenta e madura, dentro do que é possível. No fim, o que precisa existir é disposição de descer um pouco por vez, sabendo que cada centímetro que se desce é um passo que não vai precisar ser refeito.

Algumas empresas chegam até mim quando a árvore já está grande. Outras chegam cedo, quando ainda não sabem exatamente o que está errado, só sabem que algo cresce numa direção que não querem. Para mim, tanto faz o tamanho da árvore. O que muda é o tempo. E o tempo, numa empresa, tem custo.

Se você reconheceu alguma coisa aqui, me escreve!

Simone Feuser

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