O que está por baixo da ruminação que nenhum curso de liderança te ensina
Você passou anos repassando erros como se o passado fosse editável. O que descobriu no caminho é que ruminação não é autocrítica, é arrogância disfarçada. E para quem lidera, o custo disso vai muito além do sofrimento pessoal.
LIDERANÇACOMPORTAMENTO
Simone Feuser
6/26/20263 min read
Durante toda a minha vida eu tive que trabalhar a culpa. E junto com ela, uma coisa que dói de um jeito muito específico: a ruminação.
Sabe aquele movimento de ficar repassando uma decisão, uma fala, uma escolha, como se da próxima vez que você revisitasse, o resultado fosse ser diferente? Como se existisse uma versão editável do passado esperando você chegar lá e consertar?
Eu fiz isso por muito tempo. E foi só quando parei para olhar de verdade que percebi o que estava embaixo.
Ruminação é arrogância. Uma arrogância muito disfarçada de autocrítica, mas arrogância.
Ela parte de uma premissa que nunca é questionada: que havia uma versão melhor de você disponível naquele momento, e que você, por algum motivo, não a usou. Que você poderia ter sido diferente. Que você deveria ter sido.
Em quem lidera ou empreende, esse padrão tem um custo especialmente alto, porque a exposição ao erro é constante. Toda semana tem uma decisão que não foi como planejado. Uma conversa que saiu diferente do que você esperava. Uma aposta que não deu o retorno que deveria. E aí a ruminação encontra material novo o tempo todo.
O problema não é que você está errando. O problema é o que você faz com o erro depois.
A gente age sempre com quem a gente é no momento da ação. Com o nível de consciência que tem ali, com aquela informação, com aquele estado emocional, com aquela leitura do contexto. Não existe uma versão mais evoluída de você escondida em algum lugar que você se recusou a acessar naquela reunião, naquela contratação, naquela escolha estratégica.
Isso não é permissividade. Não é "tanto faz o que você decide". É uma leitura honesta de como a cognição humana realmente opera, e ignorar isso tem consequências práticas que vão muito além do sofrimento pessoal.
O líder que rumina fica preso no passado no exato momento em que o time precisa que ele esteja presente. A energia que deveria ir para a próxima decisão fica consumida repassando a anterior. E tem algo mais sutil acontecendo aí: a ruminação sinaliza para o entorno que o erro é uma ameaça, não uma informação. Isso muda o que as pessoas trazem para você, o que escondem, o nível de risco que estão dispostas a assumir quando você não está olhando.
Uma cultura se forma também pelo que o líder faz com os próprios erros.
O autoperdão, quando a gente para para olhar de perto, também tem algo de distorção. A ideia de que você precisa se perdoar parte do princípio de que houve uma falha que precisa ser absolvida, e aí você fica preso nessa lógica onde o erro é inadmissível mas pode ser redimido. O sistema continua intacto. A cobrança não sai, ela só ganha uma saída de emergência chamada perdão.
O que parece mais honesto, pelo menos foi o que funcionou para mim, é uma coisa diferente: parar de cobrar. Não perdoar no sentido de absolver. Desistir da cobrança como premissa e aceitar o passado. Reconhecer que o erro foi o que foi possível naquele momento e que isso não precisa de condenação nem de absolvição, só de reconhecimento.
E depois disso, a pergunta útil: o que eu sei agora que não sabia então?
Essa pergunta gera aprendizado. A ruminação não gera nada, só reproduz a cena com variações que nunca chegam a lugar nenhum.
Para quem lidera, essa distinção importa de um jeito muito concreto. Porque o que você faz com os seus erros é o que as pessoas ao redor de você vão aprender a fazer com os deles. Não pelo que você diz sobre isso. Pelo que elas veem você fazer.
Se você processa o erro como ameaça, elas vão esconder os deles. Se você processa como informação, elas vão trazer os deles para perto de você. E aí a empresa inteira fica mais capaz de aprender, de corrigir rota, de tomar decisões melhores na próxima vez.
Não porque alguém foi mais perfeito. Porque alguém foi mais honesto sobre o que o momento anterior revelou.
Simone Feuser
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